Estratégia no Spotify: dos OKRs para o Spotify Rhythm

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O Spotify é uma startup Sueca que vem revolucionando o mercado de música, não apenas pelo produto que oferece, mas também pelo modelo de gestão que utiliza.

OKRs na Spotify

Em 2014 Henrik Kniberg(consultor e um dos responsáveis pelo design do modelo de gestão da Spotify) postou dois vídeos explicando todo o planejamento estratégico e modelo de gestão das equipes de produto dentro do Spotify. Um modelo focado na aplicação de metodologias ágeis, colaboração entre equipes, autonomia operacional, modelo hierárquico misto(vertical e horizontal) e pouca burocracia.

Veja a explicação detalhada nos dois vídeos abaixo:

 

O planejamento estratégico da Spotify acontecia via OKRs(Objectives and Key Results), assim como em outras famosas startups de tecnologia(Google, LinkedIn etc).

O propósito e posicionamento da empresa davam o tom para os objetivos de longo prazo, os grandes direcionadores do negócio. Com os principais objetivos definidos, o restante era feito dentro das equipes, que seguem a seguinte estrutura:

  • SquadsUnidade básica de trabalho, formada por equipes entre 3 e 10 pessoas multidisciplinares. Tem total autonomia de trabalho e competência para desenvolver todos os aspectos do produto: conceituação, protótipo, design, desenvolvimento e deployment. Esses times são responsáveis pelas funcionalidades dentro do produto. Ex: Área de busca – Time X, Ferramenta de recomendação – Time Y etc.
  • TribesSegunda unidade de trabalho, formada por várias Squads que trabalham em funções complementares do produto, têm no máximo 100 pessoas. Suas Squads trabalham próximas fisicamente e se reunem constantemente para compartilhar seus trabalhos e realizar alinhamentos.
  • ChapterGrupo horizontal, composto por pessoas de perfis similares dentro de uma Tribe. Se reunem para compartilhar conhecimento, desafios comuns e melhores práticas
  • Guild: São as maiores unidades, formadas por membros com interesses em comum(Ex: UX, front-end, design). Os membros podem ser de qualquer Squad ou Tribe.

Como mostrado nos vídeos, eles já não viam na época o modelo como definitivo ou acabado, o que parece fazer sentido, já que a empresa valoriza muito um modelo ágil de gestão e, em modelos assim, a mudança é a regra.

O surgimento do Spotify Rhythm

O modelo teve seus ganhos, mas também suas perdas e, em junho de 2016, Henrik apresentou uma análise sobre este modelo holocrático, problemas que identificados e também algumas mudanças realizadas desde então.

A falta de um controle central fazia com que as equipes criassem projetos internos com base no feeling dos integrantes, geralmente dos líderes de Squads, a visão limitada aos seus escopos específicos sobrepujavam os direcionadores de negócio e isso começou a gerar alguns problemas de desalinhamento entre equipes de produto.

Este desalinhamento começou a gerar muitas iniciativas e projetos começando ao mesmo tempo, o que cuminou no aumento do nível de stress e insegurança das equipes, além de gerar um sobrefluxo de projetos em andamento.

Para lidar com o problema, a alta liderança entendeu que precisava mudar o modelo onde três objetivos deveriam ser cumpridos prioritariamente nas equipes:

  1. Ter prioridades claras
  2. Tomar decisões com base em dados
  3. Desenvolver looping de aprendizado

Modelando o Spotify Rhythm

Surgiu então Spotify Rhythm, arquitetado da seguinte forma:

No centro do modelo estão as Crenças da Empresa(Company Beliefs). Elas dão o tom do planejamento estratégico, são produzidas pelo fundador e devem refletir o mundo como é hoje e como a empresa pode impactá-lo nos próximos 3-5 anos. Essas crenças são obtidas através de dados e insights sobre o ambiente em torno da Spotify e seus usuários.

Das Crenças da Empresa são derivados os North Stars & Objetivos de 2 anos, desenhados pelo fundador e a alta liderança são objetivos ambiciosos, mas atingíveis se as Crenças da Empresa e a forma como gastam energia e tempo estiverem corretas.

Então surgem as Apostas da Empresa(Company Bets), projetos grandes, que duram entre 6 e 12 meses, desenhados pelo time de estratégia permeando toda a empresa, devem ser responsáveis por impulsionarem os Objetivos de 2 anos.

Na última escala existem as Apostas Funcionais(Funcional Bets) e Apostas de Mercado(Markets Bets).

As Apostas Funcionais são projetos grandes, que geralmente dizem respeito a uma única função do software  e são definidas nos Squads, geralmente apoiam Apostas da Empresa, mas podem existir separadamente. Surgem de um alinhamento Top-Down/Bottom-Up, mais parecido com o modelo OKR anterior.

As Apostas de Mercado são iniciativas e investimentos suportadas pelos times de Marketing, relacionadas às Apostas da Empresa e às Apostas Funcionais, ou são simplesmente guiadas pela segmentação de mercado.

Isso fica mais claro na imagem abaixo:


Definindo qual vai ser o ritmo

Para a estrutura funcionar, muitas mudanças estão sendo realizadas na empresa. A empresa precisa ver com clareza quais são as Apostas da Empresa, deve priorizar tempo e esforços adequadamente, em sequência.

Deve se manter organizada, monitorar tudo que está fazendo e ainda permitir a autonomia dos times, um dos aspectos fundamentais pelo qual é reconhecida, mas nada disso é simples ou fácil, então a Spotify teve de criar alguns métodos e ferramentas para auxilia-la com toda essa complexidade.

A partir das Crenças da Empresa e das North Stars, eles criam formas visuais de interpretar as Grandes Apostas, pode ser uma colagem ou um mural de post its, não importa, o que vale é conseguir visualizar todas as grandes apostas possíveis.

Isso tudo é priorizado e viram as Apostas da Empresa, a priorização é por ordem cronológica de execução(1,2,3,4) e não por nível(Alta Prioridade, Média Prioridade, Baixa prioridade). O que eles perceberam é que, no segundo caso, tudo era alta prioridade.

Com uma ordem cronológica, onde uma coisa é feita por vez, você necessariamente precisa priorizar adequadamente, mesmo que depois algumas das apostas aconteçam juntas. Prioridade é uma palavra singular, não existe prioridades.

Tocando a música ou Batendo os tambores

Com as Grandes Apostas já priorizadas, eles criam kanbans de execução com três colunas – Agora, Próximo e Depois. Este painel, como todo o resto da estratégia sempre está visível e acessível para toda a empresa. A abertura de uma Aposta está condicionada à um projeto de 2 páginas, a primeira é algo similar a um canvas de projeto e a segunda é um framework de argumentação chamado DIBB(Data, Insight, Belief, Bet).

Os DIBBs, são uma das principais ferramentas da gestão estratégica, já que eles dão o tom de como o projeto será encarado, e de onde ele veio. Dos dados coletados surgem ideias analíticas, que se transformam em Crenças e então são traduzidas em Apostas.

O monitoramento de toda a estratégia é realizado trimestralmente entre os times estratégicos e a cada 6 semanas entre os times técnicos de produto. Neste encontros é realizada uma análise crítica sobre o que foi feito, o que será feito e quais os resultados dos esforços.

E o que mudou comparando os dois formatos?

Muitas das ferramentas usadas se mantêm sendo características de times ágeis, algumas até de forma aprimorada, mas agora tudo se encontra mais simplificado e com uma linha mestra mais clara. Além disso, o controle foi realçado e a autonomia dos times de produção foi restringida.

Tudo devidamente justificado, o que Henrik Kniberg apontou como take aways do Spotify Rhythm:

  • Técnicas de metodologia ágil podem ser usadas para dirigir empresas
  • Autonomia só é escalável se os líderes conseguirem compartilhar contexto de alto nível para a empresa
  • Ferramentas simples = evolução rápida
  • Use diferentes escalas de tempo para diferentes níveis
  • Continue experimentando, mas faça o follow up

Referências

Henrik compartilhou este material em detalhes na palestra do evento Agile Sverige (Suécia Ágil).

Você pode ver tudo o que descrevemos aqui de forma mais detalhada nos slides apresentados.

Gostou da metodologia? Não? Funcionaria na sua empresa? O que você adaptaria? Deixe seu comentário e suas observações aqui embaixo, ou entre em contato com a gente.



2 comentários em “Estratégia no Spotify: dos OKRs para o Spotify Rhythm

  1. Poderia disponibilizar novamente o material?
    Estou buscando uma metodologia diferenciada das convencionais, e seu artigo ficou show!
    fico no aguardo,

    Abs

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